Comunidades ganham voz através de pesquisa
Pesquisa encomendada pela CUFA mostra opiniões de moradores de favelas
Neste domingo, dia 23 de março, o jornal O Globo divulgou uma pesquisa feita pelo Instituto Brasileiro de Pesquisa Social (IBPS), a pedido da Central Única das Favelas (Cufa). Essa pesquisa montou uma verdadeira radiografia das condições de vida dos moradores das favelas cariocas.
Os entrevistados responderam a perguntas sobre moradia, educação,
saúde, violência, ação policial e outras.
O resultado descoberto foi a melhoria da qualidade de vida nas favelas,
ainda que alguns pontos ainda deixem a desejar.
Segundo a pesquisa, quase a totalidade dos moradores afirma viver em
favelas com rede elétrica (98%), água encanada (97%) e
esgotamento sanitário (94%). A grande maioria informa viver em
ruas asfaltadas (77%) e em casas com numeração própria
(89%). Dos entrevistados, 77% dizem morar em imóveis próprios
e 46% têm acesso a computador.
Outros dados também muito relevantes: 36% acham que quem vive
na favela tem rendimentos iguais aos dos outros habitantes do Rio e 57%,
que ganham menos. Apenas 3% acham que o morador da favela é miserável.
Dos ouvidos, 42% acreditam que vivem na mesma condição
social de moradores do asfalto. Outros 46% dizem viver em condição
social inferior e 10% acham que vivem em péssimas condições.
Veja a pesquisa completa
FICHA TÉCNICA
PESQUISA SOCIAL SOBRE PERCEPÇÕES, ATITUDES E OPINIÕES
DOS MORADORES
DAS FAVELAS E COMUNIDADES DA CIDADE DO RIO DE JANEIRO
Contratante: CUFA - Central Única das Favelas
Contratada: IBPS - Instituto Brasileiro de Pesquisa Social
Período de Realização: de 27/02 a 11/03/2008
Número de Entrevistas: 1.074
Comunidades abrangidas: 101
Metodologia: Entrevistas Pessoais por Telefone
Margem de Erro: 3.0%
Intervalo de Confiança: 95%
SUMÁRIO EXECUTIVO (PRINCIPAIS CONCLUSÕES
DA PESQUISA)
a.. AUTO-IMAGEM DOS FAVELADOS: Os entrevistados se vêem como
cidadãos de segunda categoria, de baixa condição
social (46.5%) e de
baixa condição econômica (57.3%). Para eles, a razão
fundamental para
essa condição social e econômica é a "falta
de instrução" (30.3%).
Para 14.2% o favelado foi "abandonado pela sociedade". Para
11.6% ele é discriminado pela sociedade e para apenas 6.1% essa situação
se
deve à acomodação do favelado.
b.. IMAGEM DAS FAVELAS: Para os entrevistados, a imagem social
das favelas é "completamente distorcida". A favela não é "reduto
de
marginais" para 85.1% dos entrevistados e não é lugar
de "negro e
pobre" para 93.1%. Para 65.4% dos entrevistados a cobertura que
a
Imprensa faz dos acontecimentos na favela é sensacionalista, pois
distorce os fatos e usa de preconceitos.
c.. PARTICIPAÇÃO: 60.2% se sentem parte integrante da sociedade
e
45.5% afirmam que os favelados têm plena consciência dos
seus
direitos e deveres da sociedade.
d.. CONDIÇÃO DE VIDA: 98.5% dos imóveis têm
eletricidade, 97.2%,
97.2% têm água encanada, 94.4% afirmam ter rede de esgoto,
46.5% têm
computador e apenas 5.6% têm acesso à Internet. As casas
têm
numeração em 89.1% dos casos, as ruas são asfaltadas
em 77.6%, mas a
iluminação pública só ocorre em 24.1% e a
coleta de lixo em 10.7%.
e.. OBRAS PÚBLICAS: Apenas 37% das comunidades foram beneficiadas
com alguma obra de melhoria urbana nos últimos quatro anos, a
maioria
delas tendo sido realizada pela Prefeitura (14.2%). 66.3% das
comunidades não têm área de lazer. Mais uma vez,
as obras que deram origem às áreas de lazer foram feitas
pela Prefeitura (11.6%). A
maioria delas não tem manutenção regular. Entre
os agentes do poder
público mais comumente vistos nessas comunidades estão:
os garis
(54.2%), os policiais (44.8%) e os "mata-mosquitos"(36.2%).
O
Programa Favela-Bairro é conhecido por 92.5% dos entrevistados.
f.. TRANSPORTE: O meio de transporte mais utilizado é disparado
o ônibus (93.1%), seguido de Van (40.1%). Só 6.5% utilizam "carro" como
meio de transporte. Os meios de transporte são avaliados como
regulares
para bons (38.2% + 34.1%).
g.. TRABALHO E RENDA: 14.2% declararam trabalhar dentro da
comunidade e 12.9% admitiram ter uma outra fonte de renda que garante
uma renda complementar (que não constitui a maior parte da renda
pessoal). Não há apoio a cooperativas em 63% das comunidades,
nem
apoio às micro-empresas em 67.7%, não há programas
de qualificação
profissional em 54.7% nem programa de micro-crédito (67.5% não
existe).
h.. ESCOLARIDADE: 83.4% declararam ter os filhos freqüentando
escolas. 22.5% dos entrevistados estão estudando. 54.8% consideram
que a educação que receberam é suficiente ou "mais
que suficiente"
para as suas necessidades de trabalho.
i.. ORGANIZAÇÕES E ATORES SOCIAIS: Em 83.8% das comunidades
há
Igreja Católica, em 81.9% há Associação de
Moradores, em 11.6% há
milícias e em 57.9% existe tráfico de drogas. Em 15% há ONGs
funcionando e em 86% há Igrejas Evangélicas. Já partidos
políticos só
estão presentes em 10% das favelas. No quesito violência
armada,
pode-se dizer que, de acordo com o depoimento dos moradores, ela está
presente em 69.5% das comunidades. Esse número pode ser maior
pois
14.5% não responderam à questão sobre o tráfico
de drogas enquanto
8.4% não responderam à questão sobre a existência
de milícias.
j.. INFRA-ESTRUTURA DE SAÚDE: Existe Posto de Saúde em
cerca de 60%
das comunidades, mas não há médico de família
em 65% delas, agentes de
saúde em 41.4%, não há dentista em 51.4%. Quanto
a programas de Saúde,
não há planejamento familiar em 51% nem prevenção
a doenças
sexualmente transmissíveis (43.3%),
k.. CRESCIMENTO DAS COMUNIDADES: Para 61.6% dos entrevistados as
comunidades têm crescido nos últimos 5 anos. Para a maioria
(44.7%) o
crescimento foi principalmente vertical, enquanto 15.8% afirmam que
foi horizontal.
l.. INFRA-ESTRUTURA SOCIAL: Em 79.3% não há abrigos para
menores,
em 76.3% não há abrigos para idosos, em 73.6% não
há Restaurante
Popular.
m.. INFRA-ESTRUTURA DE EDUCAÇÃO: Em 15.4% das comunidades
não há
creche, em 22.7% não há escola primária, em 45.8%
não há escola
secundária, em 72.2% não há escola técnica,
em 73.6% não há curso
superior, em 53.3% não há curso supletivo, em 43.8% não
há
alfabetização de adultos.
n.. INFRA-ESTRUTURA DE SEGURANÇA: Em 52.6% das comunidades não
há
Posto de Policiamento Comunitário, em 68.4% não há Delegacia
Policial
atendendo à comunidade. Para 55.5% as operações
policiais não
diminuem a influência do crime organizado nas favelas. Houve
operações em 53% dessas comunidades de acordo com o depoimento
dos
moradores. 36.5% dos entrevistados já ouviram falar de envolvimento
de policiais com bandidos nas comunidades . 47.9% apóiam o uso
do
Caveirão nas operações policiais contra 29% que
desaprovam. 52.1% dos
entrebistados costumam ver pessoas armadas circulando na comunidade.
A maioria (54%) se sente segura dentro das comunidades contra 37.6%
que se sentem inseguros. A maioria (33.6%) acredita que a política
de
enfrentamento ao crime organizado nas favelas não tem produzido
efeitos positivos; para 28.8% os resultados não são positivos
nem
negativos e para 19.5% eles são positivos.
o.. OPINIÃO SOBRE TEMAS POLÊMICOS: Os entrevistados dividiram-se
acerca da opção de aumentar a maioridade penal para combater
o crime
entre os jovens: 41.8% foram contra e 40.5% foram a favor. A condenação
ao aborto foi firme: 66.1% são contrários. 60.5% são
contra a
legalização do consumo de drogas leves. 54% dos entrevistados
se
manifestaram contra a pena de morte e 48.9% apoiariam a intervenção
das forças armadas para o combate ao crime organizado.
p.. HÁBITOS CULTURAIS: só 25.8% dos entrevistados foram
ao cinema
pelo menos uma vez nos últimos seis meses; só 10.4% foram
ao teatro;
28.4% foram a um show de música popular brasileira; 5.6% foram
a
algum evento de artes plásticas e 12.7% foram a algum museu.
q.. POLÍTICOS E COMUNIDADE: Houve firme condenação
ao clientelismo:
75.8% condenaram a troca de votos por benefícios para a comunidade.
Em 76% dos casos nenhum político foi citado como tendo o hábito
de
comparecer às comunidades fora do período eleitoral. 66.6%
dos
entrevistados não lembram em quem votaram nas últimas eleições
para
vereador.
r.. AVALIAÇÃO DOS GOVERNOS: O governo federal é o
mais bem avaliado
nessas comunidades: 31.6% aprovam contra 22.2% que reprovam. O
Governo Estadual tem aprovação de 21.7% contra reprovação
de 22.9% e
a Prefeitura tem aprovação de 24% e reprovação
de 26% dos moradores. A
aprovação recorde do governo federal provavelmente está ligada à
expectativa em torno das obras do PAC: 53.8% disseram que acham que o
PAC vai melhorar a vida dos moradores das favelas.